Vazio imenso como a morte
dentro de mim
Como a falta que à morte dá caráter imenso
Incomensurável vazio universo
dentro de mim
Corre uma lágrima saudosa de mim
Não me encontro mais, imensa
Onde aquele avesso? Núcleo, denso
Perambulo sombra
Preâmbulo do esquecimento das estrelas,
do brilho do meu olhar, ontem
cheio de um universo infinito intenso
Agora só, vazio, vão, pretenso
Já não me chamo, não me nomeio
me esqueço, me deito
sobre a infinita falta que sinto de mim,
aluada
É assim que nos desfazemos
do dia dentro de nós
Sob súbita noite escura,
silenciosa,
despovoada.

Vi o rosto tão desesperado de uma menina
haitiana
diante da catástrofe do furação Matthew
Que imagino que a vi daqui a sessenta anos
depois de todas as catástrofes que podem acontecer a uma menina haitiana
cujo rosto era tão desesperado diante do furacão Matthew

Um escritor não é um inventor
não é um florista
pétalas e papéis
secam às resmas
sob os auspícios
do ofício do escritor

Palavra vontade
Desenterrar a invenção do mundo
libertá-la dos compêndios
dar-lhe asas
o voo alto do esquecimento
Trocar todo o entendimento
por palavras inexistentes

Um flor sem nome

Quando chega a noite
a noite mesmo
aquele homem
representante de uma minoria ameaçada
Está acompanhado?
Sente fome, frio, sede?
Tem medo?

 A alma percorre a terra
atrás das palavras
miasmas delas
rumores
cantos dialetos

Alguém ouviu falar
Alguém tem que saber
da palavra
que ontem chamava você
e hoje é silêncio


Notas de Babel III

Tentou escrever sob a opressão de uma espécie de determinismo vigente. Não conseguiu. Era como se vivesse sobre um despenhadeiro sem nome. A essência de qualquer abismo lhe surgia como perdição, esquecimento, destruição das circunstâncias formadoras do homem, agora, definitivamente, fadado ao silêncio e ao fracasso, enquanto raça e ethos pessoal e social. A praça pública lhe parecia mais com uma fileira daqueles cães-robôs com seus dentes de metal à mostra, prestes a devorarem qualquer ideia de liberdade e transcendência, que subjugasse a realidade negativa imposta por uma ordem surgida do caos, que, como se não bastasse, comprovava a primeira contradição do novo sistema. Tudo se desenhava muito cinza, ou no seu oposto, um colorido terrífico, cansativo, apenas para esconder a falta de sentido que tomava conta daquilo que sondava um caminho que tivesse propósitos claros. Que decadência delirante. Havia quem aplaudisse o contrassenso e o abismo com sua garganta à espera das quedas infinitas. Havia também quem vibrasse de alegria diante do desmoronamento da civilização conquistada após muitos erros provenientes de barbáries anteriores. A selvageria e a ignorância estavam em voga, tomavam conta da informação e formação, e não havia nada que pudesse ser feito a respeito. Ao menos, por enquanto. Vai ver, existia o momento certo para as soluções surgirem: quando menos se esperasse ou quando já não se esperava mais nada. A sina do homem do agora: não ter esperança. No mínimo manter-se estagnado, infinitamente, sobre um abismo sem nome, porém de patente autoritária, a mesma que ordenava sorrisos na tristeza, e choros na alegria. Não que fosse algo assim, incomum, casos de reações inversas, mas não era a regra. Pois bem, a partir de agora, o sistema definia que a regra era a submissão ao nonsense. E por estar sobre um abismo sem nome, e sem entender como permitiram que tudo chegasse a esse desfecho, lhe restava murmurar tais espantos, que era justamente sobre o que pretendia escrever, mas não conseguiu. Um dos cachorros-robôs, que estava a postos lendo mentes, arrancou-lhe o teclado das mãos, e estraçalhou o objeto sem piedade, a tempo de manter, oportunamente, o silêncio por mais um momento. Eterno, que fosse.

Tem dias que são noites

Não há estrelas
apenas um uivo conhecido
diante de uma lua de papel guardada em mãos
que queimam
sem iluminar

E ao contrário do que se crê
você não é o lobo

Você em três atos distantes

Quando arremessou o livro, e
contrariando a lógica, ele
abriu- se ao meio e voou
Ao dizer adeus
sem (dizer) prazer
Aí, sentado com as mãos sob o
queixo, pensando, quem sabe

Notas de Babel II

O que faremos com os quadros? Nenhuma galeria tem interesse por eles. Temos apenas um grafitado que pode ser vendido online. Que seja. Coloque no canto dos "itens à venda". E as velhas poltronas, cheias de marcas de grandes bundas sentadas enquanto seus donos sem conteúdo discutiam a próxima eleição? Será que garimpeiros de antiguidades se interessariam? Como é mesmo o nome daquela feira de móveis antigos que fica a algumas quadras daqui? Poderíamos tentar. E o que será do brasão da família? Não combina com a decoração da nova casa. E não faz muito sentido carregar um brasão na era da pós-verdade. Pode muito bem ser confundido com alguma insígnia tenebrosa, ou algo que ofenda a maioria mimada do novo mundo de mimos, incoerências e contrasensos. E, de mais a mais, o que diz mesmo um brasão? Apenas que houve um grupo, que, em dado momento precisou de um escudo que permitisse sua identificação. Nada que não aconteça nos dias de hoje com tatuagens pelo corpo. A diferença é a falta de escudo. E, deus!, com quem deixar a prataria da vovó? E seu piano, que fim levou? Lembro dela nos brindando com sua lufada de erudição musical ao fim das tardes de domingo. Também não encontro as chaves da biblioteca. Poderia passar por livros e livros sem reconhecê-los nossos. Talvez não fossem mesmo. Eram tantos os que frequentavam essa casa, que já não sei dizer quem trouxe e quem levou o quê. Alguém sabe onde foi parar o tinteiro? Eu sei que ninguém mais usa, mas trata-se de valor sentimental. Quanta antiguidade! Vamos trocar tudo por uma  Alexa. Que concentre todos os atividades residenciais em sua memória ilimitada. Quero persianas e lâmpadas conectadas. Leitura de e-books ao anoitecer com a voz do Chico Buarque clonada. Abertura da porta blindada toda vez que eu sorrir para a câmera de entrada. Cumprimentos com sotaque britânico, e terapia lacaniana às quartas. Também seria bom ela conhecer algumas receitas francesas, e técnicas de persuasão chinesas, bem como mandarim, e esperanto. Fluentes, é claro.

 

Hoje é o dia da criança que a vida estapeou

Peixes

Peixe náutico
nautilus peixe
peixe neptunus
peixe maré-marés
peixe serra
serra peixe
peixe feixe
peixe eixo
peixe baixo
gordo peixe
peixe contra
verso peixe
peixe ungido
peixe vinho
peixe hóstia
ave peixe
peixe terno
eterno peixe
peixe nada
nada peixe
peixe voa
voa nada
peixe pouco
muito peixe
rima peixe
nada nada

Peixe nunca pescado
morre sempre no mar

A crença é o antídoto da razão

Forjo-me no que já existe
A engrenagem riquíssima que constrói a dialética
é a mesma que explica a memória aparentemente conhecida
dos sinais
Ah, mundo repetitivo e… longo
O carrossel das carabinas e dos corações
Das bombas-mães e reconstrução
Dos homens e suas caras de milênios
Que não mudam um a,
inutilmente capazes
Filhos de templos, tradição, e hora h,
O norte não existe à toa
Nem carrega duplo sentido à toa
A razão é um tanto fria
E uma galáxia não se precipita à toa
Mas nossa crença é no desconhecimento
E nossa sede, nas virtudes que não temos
Muita coisa a dizer da linguagem poética
” As nuvens não boiam no céu à toa”
É nisso que a gente crê

Crédito da imagem: Heitor Magno

         Crédito da imagem: Heitor Magno

Um homem é a grafia 
de uma estrela

Notas de Babel I

As palavras saíram correndo dos meus dedos, também não as encontro em minha mente, cheia, poluída de estéticas minimalistas e outras cositas comezinhas, triviais, insatisfatórias. A ideia não permanece por muito tempo, lúdica, salta para outras orbes, menos densas. Não sei se busco uma persona ou um conceito. Eu pensava que me conhecia, mas não me conheço. Mal sei quem sou. Vejo idas e vindas de ambições, todas atrás de um sucesso sem nome. A vida tornou-se um acontecimento. Não o precípuo, mas o festivo. Como se todos fossem eternos, e só valesse a pena tornarem-se conhecidos de todos. Gostaria que algum oráculo me dissesse que caminho seguir, mas ultimamente descreio dos oráculos. Pitoyable, eu diria, se falasse francês.

É nas nuvens 
que mora toda a saudade do mundo