A imagem de um grito em silêncio
quando não sai uma linha
Ao contrário do que dizem
as palavras não dizem tudo
Formicidas
Parece que formigões envenenaram o formigueiro com a desculpa de proteger a colônia.
Hoje em dia
todo mundo
conhece todo mundo
Eu não
reconheço mais ninguém
Cronos
A hora
amarra
a vida
O sexo
o filme
A espera
o contato
O círculo
os traços
dos ponteiros
do relógio
Ontem, sem saber quem era
Hoje, ao olhar a sombra no espelho sem corpo,
antimatéria
Ocaso do espírito das horas
Não contar mais minuto, história
O homem, presa do homem
A arte de seduzir auroras
Anoitecer sonhos
Pequenos apetrechos deitados por terra
A varredura dos grãos da memória
Que se desfaz aos poucos, etérea
Sobre o esquecimento da miséria do homem
O homem sentenciado ao silêncio
O silêncio vertido em pós-guerra
Não me sinto viva quando não escrevo
No entanto é a vida que pulsa o silêncio do teclado
Não parece vida, não parece
Aqueles que não escrevem me acharão louca
Mas é a palavra a serpente
Desperta desse abismo
Que é grande, mas
Não parece vida, não parece
Mitógrafo Sibilino
| da minha poesia | parte I |
Pendo para os santos
arquétipos
personas
índices de qualidade
(a minha poesia é áspera)
sóis
pedras
caminhos
irradiações orgânicas
(a minha poesia é sêmen)
articulações
flexibilidade das rochas
unidade do nível do mar
possível verde dos seus olhos
(a minha poesia é falta )
hexágonos
espelhos
confins
infinitos
(a minha poesia é contínua)
ácidos
lítios
álcoois
números atômicos
(a minha poesia é signo)
rosas
canteiros
sabiás
pardais
(a minha poesia é passada)
ele
ela
você
eu
(a minha poesia é núcleo)
supernovas
universos
galáxias
buracos negros
(a minha poesia é nada)
advérbios de consignação
reflexões verbais
empréstimos alegóricos
palavras nonadas
(a minha poesia é quase)
Então acordou barco Logo notou-se náufrago O fundo do mar, uma incógnita Os peixes não sabiam falar
Relógio de ver o sol
Atrás de onde eu trabalho
antes fôra uma pequena fábrica
dessas antigas, anos 50
sólida, robusta, quieta
inacreditavelmente silenciosa e limpa
A construção baixa – suas telhas mais precisamente –
alimentava a minha esperança de não ver as cidades
ruírem para cima
Não que eu tenha, especificamente, algo contra prédios
Moraria em um se fosse preciso
Mas muitos deles, assim, escondendo a luz no concreto,
me assombram
Onde existem muitos prédios
só faz sol ao meio-dia
Um vazio do tamanho de um mundo
vazio / cheio de gente cheia de um
vazio / do tamanho do mundo vazio
cheio de gente vazia de cheias.