Notas de Babel II

O que faremos com os quadros? Nenhuma galeria tem interesse por eles. Temos apenas um grafitado que pode ser vendido online. Que seja. Coloque no canto dos "itens à venda". E as velhas poltronas, cheias de marcas de grandes bundas sentadas enquanto seus donos sem conteúdo discutiam a próxima eleição? Será que garimpeiros de antiguidades se interessariam? Como é mesmo o nome daquela feira de móveis antigos que fica a algumas quadras daqui? Poderíamos tentar. E o que será do brasão da família? Não combina com a decoração da nova casa. E não faz muito sentido carregar um brasão na era da pós-verdade. Pode muito bem ser confundido com alguma insígnia tenebrosa, ou algo que ofenda a maioria mimada do novo mundo de mimos, incoerências e contrasensos. E, de mais a mais, o que diz mesmo um brasão? Apenas que houve um grupo, que, em dado momento precisou de um escudo que permitisse sua identificação. Nada que não aconteça nos dias de hoje com tatuagens pelo corpo. A diferença é a falta de escudo. E, deus!, com quem deixar a prataria da vovó? E seu piano, que fim levou? Lembro dela nos brindando com sua lufada de erudição musical ao fim das tardes de domingo. Também não encontro as chaves da biblioteca. Poderia passar por livros e livros sem reconhecê-los nossos. Talvez não fossem mesmo. Eram tantos os que frequentavam essa casa, que já não sei dizer quem trouxe e quem levou o quê. Alguém sabe onde foi parar o tinteiro? Eu sei que ninguém mais usa, mas trata-se de valor sentimental. Quanta antiguidade! Vamos trocar tudo por uma  Alexa. Que concentre todos os atividades residenciais em sua memória ilimitada. Quero persianas e lâmpadas conectadas. Leitura de e-books ao anoitecer com a voz do Chico Buarque clonada. Abertura da porta blindada toda vez que eu sorrir para a câmera de entrada. Cumprimentos com sotaque britânico, e terapia lacaniana às quartas. Também seria bom ela conhecer algumas receitas francesas, e técnicas de persuasão chinesas, bem como mandarim, e esperanto. Fluentes, é claro.