Mitógrafo Sibilino

| da minha poesia | parte I |

Pendo para os santos
arquétipos
personas
índices de qualidade
(a minha poesia é áspera)
sóis
pedras
caminhos
irradiações orgânicas
(a minha poesia é sêmen)
articulações
flexibilidade das rochas
unidade do nível do mar
possível verde dos seus olhos
(a minha poesia é falta )
hexágonos
espelhos
confins
infinitos
(a minha poesia é contínua)
ácidos
lítios
álcoois
números atômicos
(a minha poesia é signo)
rosas
canteiros
sabiás
pardais
(a minha poesia é passada)
ele
ela
você
eu
(a minha poesia é núcleo)
supernovas
universos
galáxias
buracos negros
(a minha poesia é nada)
advérbios de consignação
reflexões verbais
empréstimos alegóricos
palavras nonadas
(a minha poesia é quase)

Então acordou barco Logo notou-se náufrago O fundo do mar, uma incógnita Os peixes não sabiam falar

Relógio de ver o sol

Atrás de onde eu trabalho
antes fôra uma pequena fábrica
dessas antigas, anos 50
sólida, robusta, quieta
inacreditavelmente silenciosa e limpa
A construção baixa – suas telhas mais precisamente –
alimentava a minha esperança de não ver as cidades
ruírem para cima
Não que eu tenha, especificamente, algo contra prédios
Moraria em um se fosse preciso
Mas muitos deles, assim, escondendo a luz no concreto,
me assombram
Onde existem muitos prédios
só faz sol ao meio-dia