Queria, na elegância que a física buscou para a teoria de tudo,
uma única palavra para dizer que viver dói
que não conta

Aqueles que cabem em algemas
são os movimentos dos pulsos
atrás da cabeça
no meio das pernas

Caracol pétreo-metálico
me recolho em pensamentos

Batismal

O peixe adivinha o mar
docas submersas
em civilizações de areia e cal

O peixe adivinha as ondas
expostas circunflexas
ante o cal e as civilizações de areia

O peixe adivinha
-se estilete
entre moléculas de areia
cal e civilizações

Seus dois lados refletem
as duas faces dos mundos
dissipam-se Mudras

O céu feito de espumas revoltas
a visão do cataclismo
o início e fim do cordeiro

O peixe adivinha
e antecede o cordeiro

Saudade, uma parte minha
à distância
em tuas mãos

Os olhos dele
Os olhos dele pareciam dois gritos
os olhos dele pareciam dois gritos na noite
os olhos dele pareciam dois gritos na noite de lua cheia

E ela, sereia no dia da santa
matreira de olho na santa
cabreira sem o aval da santa
ignora

Não toco você porque você é um ideal
O meu amor por você é um ideal
O que não deixa de ter importância
Ser o objeto do ideal de outrem
Se eu fosse você me amava só por isso

Eu não sei quem sou
Veja nos seus documentos
Lá está escrito um nome que não diz nada de mim
E o espelho?
Apenas um reflexo que diz pouco de mim
Que tal dentro?
Dentro só existe um além que não diz tudo de mim
E fora?
Fora é esse contínuo que impede de saber quem eu sou

Meus amigos são todos frágeis
sofrem todos de falta de robustez

inútil tentar ser rocha
quando se padece de água

são todos um mundo de água
sobre uma folha de rocha
única, fina, pouca

nem uma pedra agudiza
todo esse mundo de água

meus amigos são todos fortes
todo mundo é indefeso

Tudo o que se quer da vida é um carinho,
mas ela gosta mesmo é de morder

Meu coração é um pedaço de pedra dentro do peito
Um embuste, um saco de roupas velhas
Um dia esquecido em cima do outro
O ontem e o hoje misturados
Jornais de mentira empilhados em cartas de saudades
Um copo de uísque sem gelo
Só gelo
Só copo
Só pedra
Que vez ou outra trinca

Matas o lobo dentro de ti
Quem, insano, precisa de tamanha pelagem perante os céus
Ou de grandes patas para voar?
É sempre da grande altura que cai o peso superlativamente excessivo
O ar guarda sinais que os dentes não sabem decifrar
Nem podem ser lidos por uma alma rapina
O homem vestido de negro sabotando a escuridão

Vai, sucumbes à bondade que lateja em teu coração desde eras glaciais
E já não precisas do lobo
Podes ser o que quiseres
Podes ser um vaso para a alma
Um ser alado
Um pássaro
Um monge

Podes ser uma flor

Dizes do caminho
o que fazes
por onde andas
o que comes
por quantos bebes
e quando lembras
por onde seguem
os veios
da memória

Interlúdio com Marina Tsvetáyeva

Veja Marina,
um poeta bolchevique
Amanhã aquela bandeira estará a meio-mastro
Mas nós voaremos por sobre ela

Fome

Nossa idade da razão
de pedra
Da tecnologia
das cavernas
Do terceiro milênio
– idade média
Ainda se espanta:
com o homem que busca
pão no lixo
Não com o pão
no lixo
ou com o lixo
ser pão

Flúmen

Minha mãe era um monstro de água
carregada de toda a água do mundo
dada a lunações e marés, tsunamis
enchentes, danações, fins de mundo
Toda essa mítica apocalíptica
de que tudo vai acabar
e acaba
Tinha o rosto redondo da lua
dentro da noite de seus olhos escuros
Talhe de dríade sul americana
de etnia terena, talvez
E aquela tineta alemã
desconcertante e pontual
igual a uma usina de automóveis
de feitura, fabrico, fornadas
Podia ser chamada Elka, Astrid, Mina
mas Benta a quis Maria e Maria
deu-se ao mar
O mar engoliu minha mãe
tomou Maria todinha
Minha mãe tornou-se o mar
de curvas altas, sinuosas
temperamento aflito, absoluto
Construtor de orlas, costas, areias
recifes, ondas, eu profundo
Tornou-se uma grande cheia
ameaçou inverso dilúvio
E eu sou aquela noz ribeira
que, errante, de veia em veia
desaguou no fundo de tudo