Queria, na elegância que a física buscou para a teoria de tudo,
uma única palavra para dizer que viver dói
que não conta
Batismal
O peixe adivinha o mar
docas submersas
em civilizações de areia e cal
O peixe adivinha as ondas
expostas circunflexas
ante o cal e as civilizações de areia
O peixe adivinha
-se estilete
entre moléculas de areia
cal e civilizações
Seus dois lados refletem
as duas faces dos mundos
dissipam-se Mudras
O céu feito de espumas revoltas
a visão do cataclismo
o início e fim do cordeiro
O peixe adivinha
e antecede o cordeiro
Matas o lobo dentro de ti
Quem, insano, precisa de tamanha pelagem perante os céus
Ou de grandes patas para voar?
É sempre da grande altura que cai o peso superlativamente excessivo
O ar guarda sinais que os dentes não sabem decifrar
Nem podem ser lidos por uma alma rapina
O homem vestido de negro sabotando a escuridão
Vai, sucumbes à bondade que lateja em teu coração desde eras glaciais
E já não precisas do lobo
Podes ser o que quiseres
Podes ser um vaso para a alma
Um ser alado
Um pássaro
Um monge
Podes ser uma flor
Interlúdio com Marina Tsvetáyeva
Veja Marina,
um poeta bolchevique
Amanhã aquela bandeira estará a meio-mastro
Mas nós voaremos por sobre ela
Fome
Nossa idade da razão
de pedra
Da tecnologia
das cavernas
Do terceiro milênio
– idade média
Ainda se espanta:
com o homem que busca
pão no lixo
Não com o pão
no lixo
ou com o lixo
ser pão
Flúmen
Minha mãe era um monstro de água
carregada de toda a água do mundo
dada a lunações e marés, tsunamis
enchentes, danações, fins de mundo
Toda essa mítica apocalíptica
de que tudo vai acabar
e acaba
Tinha o rosto redondo da lua
dentro da noite de seus olhos escuros
Talhe de dríade sul americana
de etnia terena, talvez
E aquela tineta alemã
desconcertante e pontual
igual a uma usina de automóveis
de feitura, fabrico, fornadas
Podia ser chamada Elka, Astrid, Mina
mas Benta a quis Maria e Maria
deu-se ao mar
O mar engoliu minha mãe
tomou Maria todinha
Minha mãe tornou-se o mar
de curvas altas, sinuosas
temperamento aflito, absoluto
Construtor de orlas, costas, areias
recifes, ondas, eu profundo
Tornou-se uma grande cheia
ameaçou inverso dilúvio
E eu sou aquela noz ribeira
que, errante, de veia em veia
desaguou no fundo de tudo
