Notas de Babel III

Tentou escrever sob a opressão de uma espécie de determinismo vigente. Não conseguiu. Era como se vivesse sobre um despenhadeiro sem nome. A essência de qualquer abismo lhe surgia como perdição, esquecimento, destruição das circunstâncias formadoras do homem, agora, definitivamente, fadado ao silêncio e ao fracasso, enquanto raça e ethos pessoal e social. A praça pública lhe parecia mais com uma fileira daqueles cães-robôs com seus dentes de metal à mostra, prestes a devorarem qualquer ideia de liberdade e transcendência, que subjugasse a realidade negativa imposta por uma ordem surgida do caos, que, como se não bastasse, comprovava a primeira contradição do novo sistema. Tudo se desenhava muito cinza, ou no seu oposto, um colorido terrífico, cansativo, apenas para esconder a falta de sentido que tomava conta daquilo que sondava um caminho que tivesse propósitos claros. Que decadência delirante. Havia quem aplaudisse o contrassenso e o abismo com sua garganta à espera das quedas infinitas. Havia também quem vibrasse de alegria diante do desmoronamento da civilização conquistada após muitos erros provenientes de barbáries anteriores. A selvageria e a ignorância estavam em voga, tomavam conta da informação e formação, e não havia nada que pudesse ser feito a respeito. Ao menos, por enquanto. Vai ver, existia o momento certo para as soluções surgirem: quando menos se esperasse ou quando já não se esperava mais nada. A sina do homem do agora: não ter esperança. No mínimo manter-se estagnado, infinitamente, sobre um abismo sem nome, porém de patente autoritária, a mesma que ordenava sorrisos na tristeza, e choros na alegria. Não que fosse algo assim, incomum, casos de reações inversas, mas não era a regra. Pois bem, a partir de agora, o sistema definia que a regra era a submissão ao nonsense. E por estar sobre um abismo sem nome, e sem entender como permitiram que tudo chegasse a esse desfecho, lhe restava murmurar tais espantos, que era justamente sobre o que pretendia escrever, mas não conseguiu. Um dos cachorros-robôs, que estava a postos lendo mentes, arrancou-lhe o teclado das mãos, e estraçalhou o objeto sem piedade, a tempo de manter, oportunamente, o silêncio por mais um momento. Eterno, que fosse.