A dor é um pedido
Pode ser a cabeça pedindo menos gordura
o fígado menos ódio
o coração mais amor

A Dor

Uma lacuna um buraco enorme e sem fim dentro do peito
como o rombo de uma explosão em Hiroshima
o que corrói a vida de quem ri
sem rima
como o oco sem fundo sem fim sem meio

Vontade de desaparecer em meio ao éter do mundo
ir ao fundo do que não existe
fundir-se ao inconcreto
que jaz sem gritar que arde

Precisar morrer por um segundo
apenas
e saber que não se morre por um segundo
nem por um segundo que seja

A dor
Quer comer a alma dos poetas
porque sempre come do melhor

Acróstico

Sensação
Antropofágica de
União
Desfeita
Ante à
Dista igualmente
Eqüidistante

A Confraria dos Infelizes

A Confraria dos Infelizes
cria novas diretrizes
para esta reunião:
— Fica estabelecido que falar é improvável
viver é insondável
Rir é abrir um mar de fogo
Portar três anéis de Saturno
em frente a Aldebarã
Rir é – doravante – além de tudo
“pequeno”, portanto negado
É crime sujeito a penas e leis
— Estais proibidos de rir, vós que adentrais
a Simba
O tilintar de nossos ossos infelizes
diz um severo e ranzinza não para as vossas desconfianças
e abestamentos
Ranzinza para mostrar o quanto queremos que pareceis tolos perante vós mesmos quando abestados
Severo, para que nos confieis sempre, sem perguntas
— Desconfigurem-se as vossas vontades
Vós não podeis rir nunca mais!
Que afronta! Com tanta
miséria, descalabro, estupidez
no mundo
vós quereis rir!
Só vós
— E tu? Não pensais por um minuto
em quantas lágrimas rolam enquanto tu ris
E vós outros, em quantas dores penumbram a humanidade
enquanto de vossas bocas sai apenas alegria
Que corem as vossas dignidades
— Também fica estipulado que precipitar-se fora é terminantemente proibido
Vós que chegais a essa hora por aqui
com esse riso estúpido na cara

A Casa dá por iniciada a sessão.

A escola não me calçou
Não me deu um par de botas para caminhar aos trancos
Não colou minha costela emprestada, direito
Não despertou meus visionários sonhos
E se não perverteu minha fé absoluta
Também não converteu meus demônios em fase de birra
Não acendeu nenhum incenso para acalmar minha ira
Apenas fincou sua bandeira de uma desinteligência arcaica
Da forma mais prosaica
No topo da minha cabeça
Essa, que quer que eu a obedeça
Mas não
O que apreendi foi sozinha
Eu e eu mesma em minhas ladainhas
De um canto em furor quase mudo
Minhas dores todas levam acentos agudos
Assim como a minha alegria

Unhas

Não fiz as unhas esta semana
gastei-as
percorrendo teclas eternas
formulando perguntas

Serrei-as
clicando em cores
formatando
a métrica
da ideia
da busca
de soluções

Montei estruturas sem luxo
anéis de saturno
circulares
paralelos
em eterno movimento

Olhei-as buscando a palavra
o sentido exato

Risquei a pele
na ânsia por respostas

Apoiei-as na língua
entre os dentes
e meu olhar se congelou num ponto
o limite

Indignada, cortei uma delas
com uma mordida

Uns morrem de medo
Outros morrem de horas
Eu, que sou vivo
subtraio tempos da finitude
Gasto todos eles
Não uso relógios
Não conto batidas do coração
Nem quando te vejo
Meu único ritmo para com a selvageria dos tempos
É a respiração profunda dos enfermos
Para com a sofisticação de um lampejo
Um crepitar de sinapses que não vejo
Porque há almas que soltam faíscas
Essas são dignas dos tambores de ventos

Vazio imenso como a morte
dentro de mim
Como a falta que à morte dá caráter imenso
Incomensurável vazio universo
dentro de mim
Corre uma lágrima saudosa de mim
Não me encontro mais, imensa
Onde aquele avesso? Núcleo, denso
Perambulo sombra
Preâmbulo do esquecimento das estrelas,
do brilho do meu olhar, ontem
cheio de um universo infinito intenso
Agora só, vazio, vão, pretenso
Já não me chamo, não me nomeio
me esqueço, me deito
sobre a infinita falta que sinto de mim,
aluada
É assim que nos desfazemos
do dia dentro de nós
Sob súbita noite escura,
silenciosa,
despovoada.

Vi o rosto tão desesperado de uma menina
haitiana
diante da catástrofe do furação Matthew
Que imagino que a vi daqui a sessenta anos
depois de todas as catástrofes que podem acontecer a uma menina haitiana
cujo rosto era tão desesperado diante do furacão Matthew

Um escritor não é um inventor
não é um florista
pétalas e papéis
secam às resmas
sob os auspícios
do ofício do escritor

Palavra vontade
Desenterrar a invenção do mundo
libertá-la dos compêndios
dar-lhe asas
o voo alto do esquecimento
Trocar todo o entendimento
por palavras inexistentes

Um flor sem nome