Vazio imenso como a morte
dentro de mim
Como a falta que à morte dá caráter imenso
Incomensurável vazio universo
dentro de mim
Corre uma lágrima saudosa de mim
Não me encontro mais, imensa
Onde aquele avesso? Núcleo, denso
Perambulo sombra
Preâmbulo do esquecimento das estrelas,
do brilho do meu olhar, ontem
cheio de um universo infinito intenso
Agora só, vazio, vão, pretenso
Já não me chamo, não me nomeio
me esqueço, me deito
sobre a infinita falta que sinto de mim,
aluada
É assim que nos desfazemos
do dia dentro de nós
Sob súbita noite escura,
silenciosa,
despovoada.
Ana Peluso
sexta-feira, janeiro 31, 2025
Vi o rosto tão desesperado de uma menina
haitiana
diante da catástrofe do furação Matthew
Que imagino que a vi daqui a sessenta anos
depois de todas as catástrofes que podem acontecer a uma menina
haitiana
cujo rosto era tão desesperado diante do furacão Matthew
Ana Peluso
quinta-feira, janeiro 23, 2025
Um escritor não é um inventor
não é um florista
pétalas e papéis
secam às resmas
sob os auspícios
do ofício do escritor
Palavra vontade
Desenterrar a invenção do mundo
libertá-la dos compêndios
dar-lhe asas
o voo alto do esquecimento
Trocar todo o entendimento
por palavras inexistentes
Um flor sem nome
Ana Peluso
quarta-feira, janeiro 15, 2025
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